sombria Ariadne __________________________________________________________________________

______________________________________________

_______________________________________________

_______________________________________________



CADERNO DE CAMPO

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Li há dois verões ... amei perdidamente___________________________ obrigada CSD





O exorcismo dos fantasmas nas relações amorosas que se vão esboroando no tempo, definhando até à dissolução final é o fio condutor deste romance.

Na verdade, as cartas podem ser lidas como se fossem contos, pois são independentes umas das outras, unindo-as apenas a melancolia do discurso narrativo e algumas personagens recorrentes.

A localização espacial distribui-se por vários locais da Europa Mediterrânica ou do Sul, Portugal incluído, passando por lugares como Creta, Heraklion, Lisboa, Veneza, Nápoles com uma escapadela a Paris.



As personagens incluem um narrador cuja complexidade faz lembrar os heterónimos de Fernando Pessoa – desde o médico ao músico ou ao encenador -, embora possuindo sempre a mesma “voz” que exprime anseios, angústias e problemas existenciais muito similares: há duas esposas, uma amante de longa data, as amantes ocasionais, o rival, aqueles que zelam pela saúde mental e física do narrador e protagonista.



O tempo esgota-se nas expectativas e nos sonhos adiados sine dia, na procura do amor inesquecível, absoluto e capaz de expulsar o maior inimigo do depressivo, quando instalado na rotina do quotidiano: o tédio.



Nos textos de Tabucchi, consegue-se identificar intertextualidades com Proust, Mann, Pessoa e inclusive conseguimos encontrar uma alusão a Alfredo Duarte na carta intitulada Estranha forma de vida, sem esquecer a referência a referência a Nikos Kazantzakis.


O tempo perdido pode ser recuperado através de um instante, susceptível de eclipsar toda uma vida de tédio. Esta expectativa parece ser aquilo que mantém o mesmo narrador agarrado à vida – e à escrita – cuja linha percorre os meandros do labirinto de emoções: o fio da vida, deixado por uma atenciosa Ariadne mas que, a qualquer momento pode ser cortado por uma das Parcas.

As intertextualidades estendem-se ao campo musical e às artes cénicas, nomeadamente na referência à Norma de Bellini, na carta intitulada Casta Diva, e à música popular italiana, com especial incidência no sentimentalismo das canções napolitanas.

A extensa cultura do Autor abrange os múltiplos domínios da Arte como a literatura, a música, mas também o cinema e o teatro. Uma faceta que se projecta de tal forma no narrador principal, que não é de todo inverosímil que nos perguntemos se não se trata antes de um auto-retrato. Existem, várias possibilidades de leitura numa obra como esta: as cartas podem ser pequenas estórias independentes entre si. No entanto, no final é possível efectuar uma ligação entre elas como num puzzlle gigante que deixa, no entanto, alguns enigmas.



As Cartas são escritas, sobretudo, em tonalidades neutras ou sombrias. Variações de luz que advêm do cenário, onde a luminosidade parece, por vezes, oprimir o narrador, face à impossibilidade de partilhar/comungar os pequenos prazeres com alguém capaz de saborear na mesma medida a possibilidade da fruição do Prazer. Esta particularidade faz com que o discurso narrativo oscile entre uma narrativa serena, ora polvilhada de nostalgia ora apimentada de humor negro. As estórias desfilam como cariátides na fachada de um templo.




Um bilhete no meio do mar dá-nos a panorâmica de uma ilha grega através da narrativa que descreve o périplo pelo recantos mais pitorescos de um lugar agreste, pelo seu primitivismo e relevo acidentado, mais apropriado para cabras montesas do que propriamente para seres humanos. A faceta gourmet do narrador revela-se na descrição detalhada do processo da confecção artesanal do queijo típico da região, preparado com o cuidado e a devoção, votados normalmente ao cerimonial de um ritual religioso, onde até as ferramentas e utensílios usados no processo, adquirem um valor histórico, emocional e até mesmo sagrado, para os proprietários.

No discurso do narrador, desta estória está patente a ausência da partilha de pequenos prazeres que são o sal da vida e que o narrador saboreia com devoção. A impossibilidade de partilhá-los com o ser amado – que os não aprecia – acaba por fermentar sentimentos azedos onde cabem a mágoa e um certo rancor, aliados à solidão e à melancolia. E onde a vontade de salvar um bilhete, uma missiva que cai acidentalmente ao mar é tão ténue – ou o tédio está já de tal forma instalado – que impede a acção de qualquer uma das partes.


Na segunda carta, O Rio, cársico, que atravessa a montanha por dentro, acabando por dividi-la a meio é o mesmo que vai cavando um vale, um fosso interno na relação do narrador com a companheira. Sendo historiadora, a esposa desta personagem, vive voltada para o passado ao passo que o espírito questionador daquele leva –o a voltar-se para o futuro. Ambos se debruçam sobre tempos diferentes o que faz com que, ao cartesianismo de um deles e respectiva sujeição ao quotidiano se oponha a emotividade, o actuar por impulso do companheiro, motivado por um ideal.

A acção continua a passar-se na Grécia, desta vez na de Kazantzakis, mais propriamente em Heraklion. O narrador exprime a sua antipatia pelo polémico autor de A Última Tentação de Cristo, embora o admire e de certa forma o inveje, reconhecendo uni-los o sentimento de soberba. Na verdade, separa-os apenas a forma como o demonstram. O narrador vomita-o sob a forma de hybris, correndo o risco de incorrer na ira dos deuses, enquanto que, em Kazantzakis, esta manifesta-se sob a forma de coragem.

Esta narrativa em forma de carta, é uma reflexão sobre a fragmentação do tempo e o esboroar dos sonhos. E do desejo, que vai rasgando a alma ao meio, tal como nos rios cársicos, e que se manifesta num eterno adiar da felicidade a ser concretizada num futuro distante.


Forbidden Games é construída a partir de uma fotografia, uma imagem de uma mulher nua numa varanda parisiense. Na carta, é utilizada a imagem recorrente de uma jovem para atravessar o rio do tempo e inspirar uma arrebatada estória de paixão. Aqui, os tempos e as épocas confundem-se no cenário da Paris histórica, permanecendo intacta, através do tempo, a recordação de um intenso momento de fruição erótica debaixo do tecto nevado das amendoeiras em flor.

A Circulação do sangue é uma carta dedicada à “muito querida e amada” hemoglobina do narrador, uma dissertação acerca do medo da morte e do peso da idade, que se acumula progressivamente no líquido que corre nas veias, comprometendo a circulação. Sempre impregnada com o mais negro sarcasmo a emergir da reflexão sobre a relação entre ciências exactas e ciências humanas ou a relação entre o microcosmo cerebral e o macrocosmo que é o universo.


Em Casta Diva, o narrador mostra-se aos leitores na sua faceta de encenador, enquanto escreve uma carta à Prima Donna advertindo-a da necessidade de se submeter às suas directrizes, por mais excêntricas que lhe pareçam, sem questionar nem contestar. A versão da “Norma” imaginada por si foge aos cânones ditos “normais” ou clássicos, uma vez que alterna os diálogos melodramáticos que caracterizam a ópera, com o visual futurista dos cenários e guarda-roupa. O efeito final resulta num sincretismo temporal que se alia à mistura de estilos musicais e acabam por transformar um melodrama numa ópera buffa.

A referência ao papel das Parcas é de uma ironia e cepticismo macabro, no diálogo com a protagonista da peça de Bellini.

A analogia entre um sacerdote, em pleno acto sacrificial, com um cirurgião moderno só aumenta o aspecto tétrico da cena com os instrumentos de corte, dispostos diante daquele numa bandeja. A cena torna-se hilariante quando é encenada a fuga dos protagonistas numa potente motorizada. Mais uma vez, o rio da vida atravessa as épocas históricas, transportando os sedimentos de uma para a outra…até mesmo na mistura de ritmos e estilos musicais que juntam a música lírica às canções populares napolitanas e sambas cariocas…



Passei lá por casa mas não estavas, é mais uma narrativa em forma de carta. Um lugar na memória onde a amnésia se manifesta como o aprisionamento do passado numa carta dirigida, mais uma vez, a um amor, também ele já distante no tempo. Onde a reclusão forçada num paraíso artificial funciona como um íman, da mesma forma que a casinha de chocolate serviu para atrair Hansel e Gretel a uma armadilha. O discurso dominante na linguagem do narrador nesta carta, lembra um pouco a movimentação das personagens de Jacques Tati, onde o doente amnésico observa a sua vida de fora como se esta não lhe pertencesse. E não pertence, de facto…


A carta seguinte está relacionada com esta intitulando-se Da dificuldade de nos libertarmos do arame farpado ou da prisão murada para os excluídos. O narrador fala da evolução do século XX como sendo o tempo caracterizado pela trilogia do Zyclon B, da radioactividade e a do arame farpado (dos campos de concentração e das prisões). Todas elas formam de eliminarem aqueles que são indesejáveis para um ou mais grupos sociais.

Boas novas lá de casa é mais uma carta dirigida a um fantasma onde o narrador opta por falar do crescimento e evolução intelectual dos netos, da carreira do filho de ambos, das qualidades da nora e… da amante do filho, decorrente da necessidade deste em manter uma relação extra-conjugal isenta de tabus. Esta carta é como que uma espécie de retaliação, um saldar de contas face à constatação da como a paixão nasce, se desvanece e morre, erodida pelo tempo tal como as pedras do rio, morrendo quando a vida perde o sal…



Para que serve uma harpa com uma só corda?, fala de mais um amor que se perde no tempo. Onde é notória a nostalgia sentida em relação a um amor por uma mulher socialmente admirada e cujo rumo, a dada altura, divergiu do protagonista. Uma fuga para oriente, como o objectivo de perseguir uma vocação, em direcção à Grécia, é o bálsamo que actua como paliativo, adormecendo o sentimento que, em Portugal, se chamaria de saudade. O protagonista tem as características mentais de um Odisseu, com a sede de aventuras e viagens pelo mar fora onde os afectos encontrados em cada porto não conseguem ofuscar o mais elevado de todos os sentimentos: o amor, sublimado pela Arte em forma de Música.


O artista vive para tocar a sua música num momento único. Mas de todos os lugares onde exerce a sua adorada profissão, Nápoles parece ser aquele com que mais se identifica, uma vez que, ali, as pessoas parecem todas ter também uma vida dupla: de dia, são operários hortaliceiros e peixeiros; e de noite, tornam-se músicos e cantores a interpretar Verdi ou canções napolitanas que falem de nostalgia…




Já Sendo bom como é… é a carta do ódio. Ou melhor um amor-ódio a alguém do passado onde a ironia amarga é a fachada que esconde um fervoroso rancor por se ter sido preterido. Trata-se de uma carta de quem não tem paciência para as justificações moralistas ou politicamente correctas de alguém que busca consolo através da sublimação, numa atitude socialmente malvista. Onde a busca de uma justificação altruísta, moral ou nobre serve para justificar o qualquer acto menos digno ou totalmente egoísta como mecanismo de defesa usado, por exemplo, para justificar “os cornos plantados na testa de alguém”. De onde emerge o sentimento de vingança, saboreada como o néctar dos deuses, numa personalidade rancorosa e sentimental que se oculta por detrás de um aparente cinismo.


Livros nunca escritos, viagens nunca feitas refere-se aos projectos, sempre adiados, onde a melancolia se encontra camuflada, sepultada, debaixo da máscara do sarcasmo. Nesta missiva, assistimos ao confronto entre o espírito cartesianos da jovem e o e o daqueles que mantém o espírito errante do poeta ou a atitude questionadora do filósofo.

Na carta A máscara cansou-se notamos uma deliciosa intertextualidade com William Shakespeare onde o narrador se identifica com Hamlet. Sendo que a amada é uma Ofélia que optou pela fuga à vida. O cenário é, tal como em “Casta Diva” vanguardista e atípico. O narrador traça um auto-retrato do homem que se esconde por detrás da máscara da cultura, da ironia e do sarcasmo: “sou orgulhoso, vingativo, e ambicioso; tenho mais pecados à mão do que pensamentos para os glosar”.

O suicídio desta Ofélia é a herança deixada ao Hamlet que escreve esta carta, juntamente com o remorso que lhe está inerente.


Estranha forma de vida é um título que remete para a letra de um fado cantado por Amália Rodrigues. Acção passa-se no Porto, na Ribeira, com reminiscências a uma infância passada em Barcelona. O estímulo que desperta a memória é a vendedora de laranjas que perambula pelas vielas da Cidade Invicta, ao mesmo tempo que trauteia uma morna de Cesária Évora. Um livro perdido , esquecido pelo hóspede anterior numa das gavetas do quarto de hotel faz companhia ao narrador que aqui é um viajante solitário, excêntrico, independente e misantropo, que gosta de “mijar para o mar tirando partido do vento”.


Véspera da Ascensão relata o reencontro, entremeado pelo divagar pela obra de poetas e escritores que estimulam artificialmente o imaginário ao recorrer aos químicos e ao álcool.

Sucedem-se imagens “de saudade e de tristeza porque ninguém poderá restituir-me o tempo que deixei escoar por entre os dedos do amor”.


Em Meus olhos claros, meus cabelos de mel, revive-se a história de um amor antigo, interdito pelas convenções sociais, porque nascido de uma amizade e tornado clandestino pela percepção, algo tardia, da paixão numa altura em que já não eram livres…



Te voglio, te cerco, te chiammo relata a teluricidade do encontro imaginário com a mulher que quis mudar o parquet do apartamento num dos textos anteriormente descritos…


A Carta a escrever é aquela que é dirigida, mais uma vez, à primeira mulher, morta, suicida, a eterna Ofélia. Fala-lhe dos netos e da vida: “nunca pensamos que o tempo é feito de gotas e que basta uma simples gota, para que o líquido se derrame pelo chão e a mancha se alastre e se perca”. Trata-se de uma carta pensada mas que nunca passou para o papel.


Por último, Está a fazer-se cada vez mais tarde é deliciosamente complexa, labiríntica, tal como aliás toda a obra. Esta carta é, no entanto, o corolário da obra até por conter dois narradores, estruturando-se uma carta que está contida noutra carta. A do primeiro narrador, consiste na missiva de alguma entidade suprema que aparenta comandar os destinos dos homens, como as antigas Parcas. Átropos, a Parca que corta o fio da vida está representada, aqui, no papel de amante do segundo narrador, que é também o protagonista do romance epistolar de que aqui tratamos. Encontra-se em Creta, o local da acção da primeira deste conjunto de cartas, deixando-nos adivinhar um final sinistro, enigmático, mas implacável.


A frase “Está a fazer-se cada vez mais tarde” soa, aqui, como uma sentença. O fio perde-se. Parte-se. No labirinto mais conhecido da História do Ocidente, por esta sombria Ariadne.

(Uma obra digna do génio que a escreveu)



Por Cláudia de Sousa dias, socióloga e critica literária
em http://hasempreumlivro.blogspot.com/
(um sítio culto. um sítio de culto na esfera dos livros __________absolutamente incontornável )


________________________________________________

Centésima página. em Braga ___________________ lançamento da INÚTIL







«Se tivesse que escrever um livro de moral, as primeiras 99 páginas ficariam em branco e na 100ª PÁGINA escreveria uma só frase: Existe um único dever, o dever de amar» [Albert Camus]








___________________________________


__________________
Mais que uma livraria, uma casa de cultura. Folhear esta página, que é Centésima, com o prazer de ler ao ritmo da arte é um deleite em que, quando há tempo, há espaço para um café. A Centésima Página instalou-se na Casa Roldão, uma pérola da Braga barroca em plena Avenida Central. A casa, construída entre 1759 e 1765, é atribuída a André Soares, o mais notável arquitecto do barroco português.



A Centésima Página está na rede em http://www.centesima.com/




__________________________________________________________

POEMA DE AQUECIMENTO PARA UMA LONGA NOITE DE PROSA





{a primeira hipótese é entre duas pessoas, tu e eu, haver um intervalo, e ser esse intervalo a única coisa que nos define, crescerem estradas que não começam, despir-se o tímpano de igualdades, ter-se perdido o efeito inverso do cansaço, sermos nós sem uma raiz.}

{a outra hipótese é instaurarem-me um processo poético, tablado de improvisos, irmos a vénus num ovni, por ser a minha consensualidade um rebanho de qualidades, e na tua perspectiva de poeta ser o céu uma folha de papel branca, a claridade esconder a escuridão, e estabelecer-se uma insaciabilidade do impossível.}



Sylvia Beirute









Publicado por Texto-Al


________________________________________________________________________


quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

domingo, 15 de Novembro de 2009

Exposição do Memorial da Resistência retrata vida de Carlos Marighella (1911-1969)










Morto em São Paulo há 40 anos, numa emboscada chefiada pelo delegado Sérgio Fleury, o político protagonizou momentos decisivos na história contemporânea do Brasil. Nascido de uma família pobre de Salvador, neto de escravos e imigrantes italianos, iniciou a militância nos anos 1930.


Torturado pela ditadura do ex-presidente Getúlio Vargas e perseguido pelos golpistas de 1964, enfrentou longos períodos de clandestinidade. A exposição, que tem a curadoria de Isa Grinspum Ferraz (sobrinha da viúva de Marighella, Clara Sharf) e do jornalista Vladimir Sacchetta. Reverencia a coragem daquele que foi definido como "verdadeiro herói brasileiro" pelo crítico literário Antonio Candido.






O revolucionário Marighella recebeu, este mês, o título in memorian de Cidadão Paulistano.







Definia-se como ‘mulato baiano'' e adorava Dorival Caymmi, praia e futebol.














Mostra marca os 40 anos da morte do guerrilheiro que foi ícone do combate à ditadura militar no Brasil








O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição Marighella, em memória dos 40 anos da morte do guerrilheiro comunista, ícone do combate à ditadura militar no Brasil. A mostra que abriu ao público dia 7 de Novembro, traça o perfil e a trajetória de vida de Carlos Marighella apresentando cartas, livros, imagens de arquivo, iconografia variada, depoimentos e ainda textos do próprio Marighella.



A exposição destaca cinco momentos da vida de Marighella, da infância na Bahia à guerrilha urbana em São Paulo, nos "anos de chumbo" da ditadura militar durante a década de 1960, passando pelo começo da sua militância e clandestinidade, ainda em meados de 1930, as prisões durante o Estado Novo, o período como deputado federal e a volta à vida clandestina no período de caça aos comunistas, em 1948.



A mostra vai ficar até dia 25 de maio de 2010 e tem curadoria de Isa Grinspum Ferraz e Vladimir Sacchetta.





Memorial da Resistência
Estação Pinacoteca

Largo General Osório, 66 - Luz
São Paulo - SP
Telefone: (11) 3335.4990, ramal 27
E-mail: memorialdaresistencia@pinacoteca.org.br

http://www.pinacoteca.org.br/

















(estive há cerca de cinco anos, em São Paulo, passei na rua onde Marighella foi assassinado mas, se bem me lembro, não tem o nome dele ______________________ ) chama-se algo de que não me lembro . Algo inócuo








(______obrigada Cristina Bruno, pela dica, pela lembrança, obrigada______)

____________________________________________________________________









Das Rosas - Antonio Carlos Jobim & Dorival Caymmi

Historicamente datado (e nada inócuo)





Setúbal, 1938, oficiais alemães visitam fábrica de conservas.
Fotografia de Américo Ribeiro, arquivo municipal, Casa de Bocage / Divisão de Museus
Câmara Municipal de Setúbal.






__________________________________________________________________________

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

















"___________________________ o irritante traço contínuo.




É apenas uma dobra e um baraço. O texto dobra, efeito de colagem. O texto suspende o sentido, à espera de dizer exacto. Há frases que só completei anos depois; há frases que, no limiar dos mundos, não devem ser escritas por inteiro; há frases cujo referente de sentido será sempre obscuro. Se eu pretendesse escrever um texto sempre limpo - tiraria o traço. Onde não soubesse, nada escreveria. Mas como iria saber que ali não soube, ou nem sequer me pertencia saber? O texto é limpo, e por passajar. Onde o traço é apagado, vê-se claramente o raspar da borracha. Deixar o traçado."





Llansol, Inquérito às Quatro Confidências, p. 75, citado por IMF em http://mendesferreira.blogspot.com/




_____________________________________________________________________

















Desenho: João Concha, em  http://conchajoao-ilustracoes.blogspot.com
ilustração para texto "desistência" de Elisabeth Perestrelo













________________________________________________________________________________________

domingo, 8 de Novembro de 2009

Senhora das Tempestades







Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.

Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chegas
crepúsculos carregados de presságios e o lamento
dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.

Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em páginas nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.

Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.

Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.

Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância dissonância Senhora das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.

Senhora da vida que passa e do sentido trágico
do rio das vogais Senhora da litúrgica
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
de que não fica senão a breve música.

Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
alquimia de sons Senhora do vento norte
que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida Senhora da minha morte.

Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só ritmo como um ritmo.

Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva as procelárias
batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.

Batem os sons os signos os sinais
trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.

Senhora nua deitada sobre o branco
com tua rosa dos ventos e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco
Senhora de branco deitada no azul.

Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida tudo em ti é distância.

Senhora da hora solitária do entardecer
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
onde tu moras começa o acontecer
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.

Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
Setembro te levou para as metrópoles excessivas
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.

Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu catéter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.

Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades.




Manuel Alegre, In   Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 2, julho/setembro 1998.








fotografia http://www.lilyacorneli.com/main.htm





________________________________________________________________________________________

A Arte, Mestra da Vida



___________________________________________________________












A cor é um meio de exercer uma influência directa sobre a alma.
É frequente falar-se "no perfume das cores" ou na sua sonoridade.




Kandinsky














in  " A Arte, mestra da vida " - reflexões sobre a escola e o gosto pela vida.
Maria do Carmo Vieira, ed. Quimera








( * volta e meia, regresso a este livro, a este pequeno / grande livro de 79 páginas e não mais do que um palmo de altura. Está à minha cabeceira, é um livro companheiro, apaixonado e elegante  que fala do amor à Arte, do nobre magistério de ensinar, que mais não é do que o de encantar. É um livro sonhador; cavaleiro errante das escritas, que começa por "Era uma vez ... "; que nos lança no prazer de um tempo-relíquia.
Escrito a fogo e espada, por Maria do Carmo Vieira, professora de literatura, do Ensino Secundário, que em 1985, ano da comemoração dos 50 anos da morte de Fernando Pessoa, criou, com os seus alunos de Português do 11º ano um movimento em defesa da preservação do antigo Café do Martinho da Arcada, de que resultou a sua classificação como de interesse público.  Um exemplo de entrega ao ensino, de amor ao próximo e de paixão pela Língua Portuguesa. A autora é mestre em literatura de viagens. O livro é recente, mas a tenacidade desta professora já fez escola;  quero crer que o rasto que deixou nos alunos jamais se apagará.  ______________ a mim, en.cantou-me. Cativou-me. Está agora à esquerda, à minha cabeceira, quieto, culto e cativo. Quando eu viajar, viajará; literariamente ____ comigo






Ainda sobre "A Arte, Mestra da Vida"   ...

A autora fala das suas motivações para escrever o livro infra mencionado em Entrevista à TSF - Rádio Notícias. Para ouvir, basta clicar no link  

http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=1015548&audio_id=1217505










 BACH: ORCHESTRAL SUITE NO. 3 IN D MAJOR, BWV1068: AIR - Yehudi Menuhin




________________________________________________________________

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O desamparo



_________________________________________________________________________

pintura: Frida Kahlo (1939)




(...) pintado pouco após o divórcio de Diego, sinaliza o corte dilacerante que a realidade lhe impõe. A Frida objeto de amor de Diego e seu alter ego tem expostos seus corações ligados um ao outro apenas por uma artéria. A Frida mexicana amada por Diego tem na mão um amuleto com a imagem do marido. A parte rejeitada europeia de Frida, corre o perigo de se esvair em sangue até a morte. Essa hemorragia narcísica quando não é estancada desemboca na melancolia , a menos que o trabalho de elaboração possa produzir uma assunção positiva do desamparo. "Por que o chamo meu Diego? Nunca foi, nem será meu. É dele mesmo."


http://www.antroposmoderno.com/textos/FridaKalo.shtml




A propósito de Frida Kahlo, do enigma e paixão que ela e a sua magnífica obra, ainda hoje suscitam, veio-me à memória Cesário Moreno, curador do Museu Mexicano de Chicago, figura incontornável da Museologia contemporânea, com quem me cruzei em São Paulo, no ano de 2003, como palestrante, no curso de especialização em Museologia, dirigido por Cristina Bruno. Lembro-me do fascínio que exerceu em mim o espirito inovador e as entusiasmadas conversas que Cesáreo Moreno animava sobre as comunidades locais e o trabalho criativo que este museu desenvolvia (e continua a desenvolver) com os imigrantes. Nesse ano, o Museu Mexicano de Chicago tinha realizado uma grande exposição, que se tornou numa evocação quase mística, em torno do culto dos mortos, tendo Frida como o pêndulo e a inspiração de toda a acção museológica. Alguém afirmou (e aqui confirmou-se) que  " Frida Kahlo é uma bomba com um laço". Uma imagem fulgurante.

Este culto, profundamente enraízado no México, tem lugar no final de Outubro e resulta de uma fusão exuberante de tradições indígenas e espanholas.




Antigamente, quando alguém morria os povos indígenas organizavam festas para ajudar o espírito no seu caminho, colocavam uma trouxa de roupas e comida. Tudo isso para que os mortos pudessem completar a sua viagem pelo Chignahuapan (sobre os nove rios). Essa seria uma longa viagem e os mortos poderiam sentir fome, calor ou frio.






Hoje, em várias regiões do México, nesse período do ano são colocadas nas casas oferendas com velas, incensos, imagens religiosas, um crucifixo e a imagem da Virgem de Guadalupe, além, é claro, dos retratos de seus entes falecidos. Juntamente com esses elementos é preparado um banquete com muita comida, bebidas alcoólicas, água, sumos, pães enfeitados com açúcar vermelho, para representar o sangue, carnes, frutas e doces.

Quando Frida era viva ela preparava essas oferendas em sua casa, hoje essas oferendas continuam a ser feitas, mas agora em sua homenagem. Muitos de seus quadros mostram essas caveiras sorridentes e ornamentadas de roupas bem coloridas.

O que Cesáreo nos mostrou foi deveras impressionante: o museu ficou pejado de oferendas em honra a Frida, tornou-se num imenso lugar de culto e fruição. Os mexicanos de Chicago celebraram-se, celebrando Frida no museu. Fascinante ___________________________________________________________


 http://www.vimeo.com/chicagohistory





______________________________________________________________________________






_____________________________________________________________________________

_________________________________________________________________________________







__________________________________________________________________________________








Adoro - Chavela Vargas

Morreu Claude Lévi-Strauss (1904-2005).

______________________________________________________________________________


_____________________________________________________________________________

_______________________________________________________________________________





Claude Lévi-Strauss‎ - Um século e um ano a re.flectir















"O mundo começou sem o homem e acabará sem ele"


Fonte: "Tristes Trópicos"

sábado, 31 de Outubro de 2009

Nostalgia do absoluto





Pintura: Paula Rego
_________________________________________________________________________________



O que a nossa espécie procura, em ultima instância, não é a sua sobrevivência e perpetuação, mas sim o repouso, a perfeita inércia. No programa visionário de Freud, a explosão de vida orgânica, que conduziu à evolução humana, foi uma espécie de anomalia trágica, quase uma exuberância fatal. Acarretou sofrimentos incalculáveis e catástrofes ecológicas. Mas este desvio de vida e consciência acabará mais cedo ou mais tarde. Um processo de entropia interna está em movimento. Uma grande quietude voltará à criação à medida que a vida regresse à condição natural do inorgânico. A consumação da líbido encontra-se na morte.





George Steiner

___________________________________________________________________

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009


Foto por Alberto Calheiros [ Liberal Natural ]






























______________________________________________________________________________



Obcecado pela linguagem escrita, monólogo gráfico esperançado apenas na réplica mental de hipotéticos leitores, quase que me esquecera de reparar no milagre da oralidade, da comunicação directa, franca, livre, sem ambições quiméricas de antologia e perenidade. A palavra temperada pelo sal da boca, arredondada pela graça labial, ágil ou morosa consoante a urgência da oração, e sempre ajudada pela presença e atenção dos ouvintes. A repetição permitida, e até desejada em certos momentos, o gesto a sublinhar e a fortalecer a intenção, os próprios silêncios a colaborar na significação e clareza do discurso.







Miguel Torga, A Criação do Mundo (dia V).







_____________________________________________________________________________

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: Por amor.


Clarice Lispector











imagem recolhida em http://www.gemeentemuseum.nl/


______________________________________________________________

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê.





Virgilio Ferreira

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Wonderkamers . De encantar ____ nas caves do museu







FV & IV Fotos  em  http://www.gemeentemuseum.nl/



______________________________________________________________________

The Marryness (1937)









_____________________________________________




















___________________________________________________

domingo, 18 de Outubro de 2009

France Telecom: 22 suicídios em 18 meses



Fotografias por Fábio Vicente . Museu de Arte Contemporânea, Haia

___________________________

Um funcionário de 51 anos da France Telecom cometeu suicídio na segunda-feira devido a problemas de trabalho na gigante francesa de telecomunicações, noticia a AFP.



Casado e pai de dois filhos, o trabalhador de uma central telefónica em Annecy (leste) deixou uma carta à família afirmando que o ambiente na empresa estava na causa do seu suicídio.


Este caso eleva para 24 o número de funcionários da empresa que se suicidaram desde Fevereiro de 2008, atitude que os sindicatos atribuem ao «stress» causado pela gestão empresarial e pelas condições de trabalho.
 



 
A France Telecom tem 100 mil funcionários na França. O Estado controla 26,7 por cento do capital da empresa, que em 2008 registou um lucro líquido superior a quatro mil milhões de euros.
 
 
 
 
 
 
 
_______________________________________
Publicada por "2ª Circular em Hora de Ponta "

Colóquio Internacional sobre Provérbios . Tavira . Portugal









Tavira 8 a 15 de Novembro


http://www.colloquium-proverbs.org/



Dependendo dos cenários culturais em que se usam, provérbios como Todos os caminhos vão dar a Tavira (All roads les to Rome) (Kaikki tiet vievät Turkuun), … circulam em vários níveis de compreensão cultural e universal. Provérbios de diferentes povos e áreas do discurso possibilitam diferentes interpretações. Além disso, o mesmo provérbio pode ser usado em distintos contextos e para diversos fins. Os provérbios sempre têm sido portadores de problemas relacionados com a sua tradução e com explicações de natureza geral e, ainda, podem ser classificados de acordo com vários critérios: históricos, linguísticos, temáticos, educativos, lógicos, …


A descrição anterior mostra a riqueza da diversidade de pontos de vista dos paremiologistas (académicos estudiosos dos provérbios e das expressões proverbiais) em todo o mundo a qual pode ser canalizada em benefício de todos, através das contribuições provenientes de áreas culturalmente complementares. Pelo menos, paremiologistas e entusiastas da temática proverbial na Europa podem unir-se. Esta é a ideia central do Colóquio, principalmente neste Ano Europeu da Criatividade e Inovação 2009.

Em anteriores encontros respeitantes a aspectos linguísticos (ex: http://www.europhras.org/english/index.html), as abordagens históricas e as relacionadas com os problemas da tradução paremiológica têm constituído somente um tema adicional ou mesmo separado de outros mais abrangentes. Os paremiologistas ainda não assumiram uma posição de construtores de uma charneira em relação a estes assuntos como devem e são capazes de o fazer. Como especialistas em assuntos tradicionais e comunicacionais, os paremiologistas possuem um enorme potencial que pode ser posto ao serviço da compreensão mútua entre culturas.

Desde o século XV têm sido publicadas excelentes colecções de provérbios. De entre muitas, podemos citar as colecções multilingues de Gyula Paczolay (European proverbs in 55 languages, 1997), Arvo Krikmann and Ingrid Sarv (Eesti vanasõnad, 1987), Metīn Yurtbaşi (Turkish proverbs and their equivalents in Fifteen languages, 1993) assim como as revistas de provérbios de Wolfgang Mieder (Proverbium: yearbook of international proverb scholarship, 1984-), Julia Sevilla-Muñoz (Paremia, 1993-). Paralelamente tem havido grandes esforços para encontrar critérios de classificação dos provérbios de que um dos exemplos mais recentes é o sistema internacional de tipos http://lauhakan.home.cern.ch/lauhakan/cerp.html do falecido académico finlandês Matti Kuusi.



É altura para Portugal, na Europa Ocidental, ter um papel mais activo na promoção de estudos paremiológicos e na motivação de entusiastas para recuperar o interesse pela temática; lembramos os exemplos de F.R.I.L.E.L. (Adágios, provérbios, rifãos e anexins da língua portugueza tirados dos melhores authores nacionaes e recopilados por ordem alphabetica, 1780) e de António Delicado (Adágios portuguêses reduzidos a lugares communs, 1923). Trata-se de um processo eficaz para reforçar a identidade de cada País e contribuir para uma melhor compreensão mútua entre nações de outras áreas culturais do nosso planeta.



_________________________________________________________________

http://www.memoriamedia.net/






_________________________________________________________________________________________________________________









En la tierra de nadie, sobre el polvo

que pisan los que van y los que vienen,
he plantado mi tienda sin amparo
y contemplo si van como si vuelven.

_______________
Unos dicen que soy de los que van,
aunque estoy descansando del camino.
Otros "saben" que vuelvo, aunque me calle;
y mi ruta más cierta yo no digo.

__________________
Intenté demostrar que a donde voy
es a mí, sólo a mí, para tenerme.
Y sonríen al oir, porque ellos todos
son la gente que va, pero que vuelve.

___________________
Escuchadme una vez: ya no me importan
los caminos de aquí, que tanto valen.
Porque anduve una vez, ya me he parado
para ahincarme en la tierra que es de nadie.



___________________
CARMEN CONDE (1907-2007)
"En la tierra de nadie"



__________________________________________________  Imagem Mário Galvão Ferreira Galante



_______________________________________________________________________________




__________________________________________________________

Fim do caminho








(..) o escritor quer muito mais do que alguma vez receberá. A sua autoridade não sai do livro para os palácios, para o trono, para o céu. A troca é mundana. Almas breves enfeitiçadas, de olhos fitos no balouçar da escrita, prontas a atirar-se no precipício do coração. Nada que possa contentar o escritor mais do que uma noite. Por isso é velho. E escreve horas a fio, como um proletário imigrante, labuta na grande obra. Já não pertence à sua terra. Pode vê-la de fora, num carrossel. Continua a obra derradeira de retirar aos outros o dom da língua. Visa apropriar-se dos modos de dizer e de sentir, instituir novas regras, que são apenas referência à sua obra: “A língua sou eu e os meus antepassados”. Escrevem em catadupa. Mas é preciso um enredo que cative. Esse o verdadeiro óbice e a verdadeira charneira da literatura, como braços de um rio.




Escrita de __________João de Sousa, visitável em http://opiniaoliteral.blogspot.com/










iv fotos. Haia Outubro 2009






terça-feira, 13 de Outubro de 2009

SHOOT- ME FILM FESTIVAL



http://www.shoot-me.nl/










Com mais de uma centena de filmes e documentários na vasta gama de programas temáticos apresentados em locais verdadeiramente excepcionais, o festival deste ano promete ser uma experiência inspiradora. O Shoot Me Film Festival abre terreno previamente inexplorado: Trespassing é permitido !






Het Shoot Me Film Festival presenteert dit jaar voor een keer vijfde uitdagend fris en programma rond filmes independentes. Locaties Op Onverwachte, zoals een tramtunnel en picadeiro, kennismaken kun je met de scherpe realizadores visie van op onderwerpen actuele. En er is meer dan alleen filme. Themaprogramma Speciale conheceu humor van een spannende combinatie, diner, muziek en feest maken de compleet ervaring. Alle worden zintuigen geprikkeld em filmbeleving vierdimensionale een. Ontmoeting staat gedurende het hele centraal festival. Ontmoeting met nieuwe mensen, locaties nieuwe, maar vooral met nieuwe werelden en subculturen. Ver van je bedshows ineens komen extreem dichtbij! Zoals het een vijfjarige betaamt, laat het festival dit jaar flink horen zich van. Zo zijn er voor het eerst competities voor zowel als beste filme muziekvideoclip. Ook de locaties bijzondere, ruim filmes honderd en documentaires en de themaprogramma's maken van dit festival belevenis inspirerende weer een. Het Shoot Me Film Festival biedt toegang tot terrein onbekend: Trespassing é permitido!























Produced by:
Upperunder

Concept by:
Yves Trottemant
Bas Ackermann
Antonio Aleixo

Shot and Directed by:
Bas Ackermann
Antonio Aleixo

Edited by:
Antonio Aleixo

Final Colour Correction by:
Bas Ackermann

Music by:
Tortoise






Shoot Me Festival 2009 TRAILER from Shoot Me Festival on Vimeo.








Os membros do júri para a primeira competição diferente Film Angle e o holandês Video Music Competition foram confirmadas: Bart Rutten, curador de Artes Visuais no Stedelijk Museum em Amsterdam, comprometeu-se na posição do presidente do júri do Concurso holandês Video Music.




Emile Fallaux, ex-editor-chefe do semanário holandês Vrij Nederland e ex-director do Festival Internacional de Cinema de Roterdão, será o presidente do júri da competição diferente Film Angle. Também participam no júri o cineasta Jochem de Vries, cujo filme curto Missen foi nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2009. O terceiro membro do júri confirmado é Hans Maarten van den Brink, escritor, jornalista e director do Mediafonds.

A poça de água de Escher . Uma metáfora da Holanda


________________________________________________________________________




___________________________



__________________________________________________________________________________

domingo, 11 de Outubro de 2009


Het Palais em Haia,
antigo palácio transformado em museu para acolher a prodigiosa obra do artista MC Escher

 



M.C.ESCHER




(curiosa Den Haag)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009







Retratos da jornada Hagish debaixo de chuva, pedalando em busca do brinco perdido da rapariga de Vermeer, algures no http://www.mauritshuis.nl/







 O café expresso no "Sting". Expressamente queimado, como de costume.










(---)



Chinese food,  a low cost meal em Den Haag.

ui ui

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009







Den Haag | Já volto

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Amsterdão ____________________ Gare Central













Não desisti de habitar a arca azul






El artista indio Anish Kapoor pasa por delante de su obra "Yellow" (1999)



--------------------------------------------------------------------------------

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.







António Ramos Rosa (1975)
in Antologia Poética
________________
Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes

"A Lição " de Eugène Ionesco


Ana Almeida e Duarte Victor

__________________Absurdo__________________


Próxima produção do TAS. Estreia a 15 de outubro no Teatro de Bolso, em Setúbal.
___________
Publicado por Zé Nova (figurinista)

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Cada momento que vivemos extingue todo o passado, ao mover-se para o futuro


Jorge Luís Borges


em http://antoniorebelodasilva.blogspot.com/

domingo, 27 de Setembro de 2009


 
_____________________________________


Depois das 7


as montras são mais íntimas







A vergonha de não comprar

não existe

e a tristeza de não ter

é só nossa







E a luz torna mais belo

e mais útil

cada objecto







ANTÓNIO REIS
Poemas Quotidianos, Porto [1957]



_______________________________


Fotografia  por Maria Avelino



____________________________________________________________

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009









“A monotonia é a repetição do mesmo milagre. A alma é tão ávida e exigente de maravilhoso que não consente a demora do mesmo prodígio, do mesmo assombro. A luz que nos deslumbra, neste momento, horas depois, deixa-nos às escuras”





Teixeira de Pascoaes








______________



in “O Pobre Tolo”, capítulo I, colecção “Obras Completas de Teixeira de Pascoaes”, organização de Jacinto do Prado Coelho, volume IX, Livraria Bertrand, 1973

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009




http://museunacionaldearqueologia-educativo.blogspot.com/



O Blogue do Sector Educativo e de Extensão Cultural do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) acaba de receber o prémio de “MELHOR BLOG DE ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL 2009”, num concurso nacional promovido pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Animação Sociocultural (APDASC) (http://www.apdasc.com/pt).
Fundada em 2005, a APDASC é uma associação de técnicos de Animação Sociocultural (ASC) que visa promover a respectiva profissão, lutando ainda pelo desenvolvimento comunitário. O concurso “O Melhor Blogue de Animação Sociocultural” destina-se a seleccionar os dois melhores blogues portugueses sobre Animação Sociocultural nas categorias “Melhor Blogue Individual” (destinado a blogue que só tenham um administrador / responsável e que não sejam institucionais) e “Melhor Blogue Colectivo” (destinado a blogues que tenham vários colaboradores / responsáveis ou que pertençam a um grupo / comunidade / instituição, como por exemplo, blogues de escolas, de associações, de um grupo de amigos, etc.). O objectivo do Concurso era promover a qualidade e a divulgação dos blogues portugueses sobre Animação Sociocultural, importantes veículos de informação, comunicação e desenvolvimento da Animação Sociocultural.
A eleição é feita através de um sistema misto que conta com a votação em linha do público (representando 50% do resultado final) e com a votação de uma Comissão de Avaliação (escolhida pela APDASC, representando também 50% do resultado final).
Concorreram à edição deste ano 14 blogues na categoria individual, tendo ganho o blogue “Crescer com o Património” (http://crescercomopatrimonio.blogspot.com/), e 16 blogues na categoria colectivo, tendo ganho o blogue do Serviço Educativo do Museu Nacional de Arqueologia (http://museunacionaldearqueologia-educativo.blogspot.com/). Obtiveram ainda menções honrosas, os blogues “Anijovem” (na categoria individual) e “Anima(C)cão” (na categoria colectiva).
Depois de em 2002, no ano do seu lançamento, ter ganho a medalha de ouro do concurso mundial do comité especializado do Conselho Internacional dos Museus para “Melhor Sítio Internet do Ano”, o Museu Nacional de Arqueologia vê agora de novo reconhecida a sua acção no domínio do uso dos novos meios de comunicação a distância, via Internet, através deste prémio, que muito honra toda a equipa do Museu, em especial neste caso o seu Sector Educativo e de Extensão Cultural. A todos os intervenientes os nossos agradecimentos, com o sentido de que entendemos estas distinções como responsabilizações acrescidas, em ordem à permanente melhoria do nosso serviço público.


Informações e contactos:
Sector Educativo e de Extensão Cultural do Museu Nacional de Arqueologia
Telef. 213620000
Email: mnarq.seducativo@imc-ip.pt

Não me vês








_____________________________





Estas imagens parecem-nos estar aqui para durar sempre, embora não representem senão um instante. O espaço, a sua visão fragmentada, apontam para uma temporalidade ameaçada e suspensa. Dario Alves dá forma a um paraíso das imagens do quotidiano, que não morrem, embora esse seja o seu destino. A certeza do traço, a claridade da pintura e das cores que amadurecem serenamente sobre a tela, falam-nos de uma Primavera incorruptível, de uma estação radiante dos sentidos, emolduradas por um equilíbrio perfeito, pela harmonia de todos os elementos da composição. O movimento está latente na serenidade das poses, um movimento interior, apelando a uma transformação, à "outra vida" que a arte sempre persegue.Maria João Fernandes, catálogo Dario Alves/trabalhos de casa/Árvore/1996

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Fotografia @ Desiree-Dolron - Librario Julio Mella (2002-2003)
http://www.desireedolron.com


"Adoro livraria. É a mais culta de todas as lojas, além de um bom lugar para se divertir. Tem café expresso, sorvete, sofás e poltronas confortáveis, CDs, DVDs, Aspirina, quiosque do McDonald e, é claro, livros. Num dia de sorte você ainda pode surpreender aquele colega de trabalho de esquerda, entusiasta de uma nova revolução bolivariana nas Américas, bem de frente para a vitrina dos livros mais vendidos, folheando romances e novelas de baixa literatura. Ou, quem sabe?, flagrar aquela vizinha do andar superior, de ar compenetrado, óculos de aros baixos, supostamente, leitora compulsiva de Virginia Woolf, no momento exato em que ela acabou de pagar por um exemplar de O Segredo. E, o que é melhor, ela não pediu que embrulhasse para presente. A livraria não é apenas um universo de três estilos literários - ficção, não-ficção e auto-ajuda -, também, é um lugar para se falar mal de livros. Antes, um esclarecimento, "ficção", como sabem, é o gênero daqueles livros escritos pelas pessoas que por anos a fio, na hora de dormir, contavam histórias para os filhos quando estes ainda eram pequenos. Dessa maneira, foram desenvolvendo uma incrível capacidade na arte de inventar. Infelizmente, alguns degeneraram para o território das mentiras colossais, como os políticos, por exemplo. Por outro lado, "não-ficção", geralmente, são escritos por aqueles que preferiam comprar livros de histórias para a criançada, em vez de contá-las, pois andavam sempre ocupados, escrevendo relatórios importantes, assistindo futebol na TV, ou vendo telenovelas. Finalmente, os categorizados como de "auto-ajuda", são redigidos por aqueles que não adotaram nenhuma destas práticas. Fala-se mal de qualquer coisa, inclusive de livros. Tenho um amigo daqueles bem radicais, vegetariano, rato de cinemateca, fã ardoroso do cinema alternativo, tais como o iraniano, o paquistanês e o argentino, que não perdoa escritores que vendem muito; livros que viraram filmes; e aqueles escritos para pura distração. "O Código Da Vinci? Humm... virou filme, é ruim! Não leio baixa literatura". É curioso as categorias que inventam para a literatura: alta e baixa literatura, como se esta fosse a Idade Média. Quando era menino, li muitos livros de piratas que singravam os sete mares em busca de fortuna e aventura. Hoje, todos eles se classificariam como baixa literatura. O que eu sei é que, além das coordenadas da Ilha de Tortuga e outros conhecimentos adquiridos, me diverti muito lendo todos eles. Analisemos a obra de Lord Byron - topo desta categorização literária - no poema Corsário, onde este escritor inglês narra as aventuras de Conrado, cavalheiresco pirata dos mares gregos, homem fatal, irresistível, às voltas com mulheres apaixonadas, além de um sultão turco chamado Seyd nos seus calcanhares, disposto a decapitá-lo assim que o capturasse. Confessem, com todo respeito ao poeta, não serviria de enredo para um emocionante filme de capa e espada estrelado por Burt Lancaster ou Errol Flynn se vivos ainda fossem? Outro dia, diante de uma prateleira repleta de livros de auto-ajuda direcionados para a mulher, mirei num título inusitado: Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, de John Gray. Como é mesmo?, refleti, largando súbito o Neruda que segurava, dirigindo-me à toalete em busca de um espelho. Não que seja demasiado vaidoso com a aparência, mas ser parecido com um daqueles homenzinhos verdes, raquíticos e de cabeça gigantesca não era do meu agrado. Diante do espelho, senti-me aliviado, não que estivesse refletido ali nenhum George Clooney, contudo, era o meu rosto de sempre. Aliás, nesta mesma prateleira, mais à esquerda, havia outro título singular: Sorria, Você Está Na Menopausa, de Maria Helena Bastos. Esse negócio de livros às vezes assusta. Não, não me refiro a nenhum conto ou novela de terror de Algernon Blackwood, mas de certo livro que encontrei na casa da tia Marizete, sempre lembrada pelo seu famoso bolo de chocolate das Sextas feiras. Enquanto aguardava o precioso manjar, corri as vistas pela sala, defrontando-me com o título do tal livro: Manuel De Sobrevivência Da Mulher De Meia Idade, de Léa Maria Aarão Reis. Sendo a minha tia uma viúva que mora sozinha, confesso, fiquei apreensivo. Em razão da sua faixa etária, estaria esta querida doceira de primeira linha, exposta a algum tipo de perigo mortal? A primeira sensação foi a de que aquele título sugeria um treinamento militar digno do Mosad. Raios duplos, pensei, por acaso um cyborg vindo do futuro - como aquele interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (Terminator) -, estava a caça de mulheres de meia-idade, pronto para apontar-lhes um Kalashinikov e dizer-lhes: "hasta la vista, baby". Frequentar livrarias tem dessas, dá asas à imaginação." "




A VOLTA AO MUNDO A BORDO DE UMA LIVRARIA

Texto escrito por Oliver Pickwick AQUI








terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Só de Sacanagem


Clique AQUI para assistir (excelente)










_________________________________________________________________
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: “Não roubarás”, “Devolva o lápis do coleguinha”, “Esse apontador não é seu, minha filha”. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba” e vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
___________________________________________________________

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

11 de Setembro ________________________________________


Instantâneo do fotógrafo alemão Thomas Hoepker, ex-presidente da agência Magnum (de 2003 a 2006)




A mais polémica foto da tragédia do 11 de setembro de 2001, não mostra o choque dos aviões contra os prédios do World Trade Center nem as vítimas do atentado. Regista uma cena idílica de verão. Nela, cinco jovens conversam tranquilamente em algum lugar de Williamsburg, no cais do Brooklyn, no meio de ciprestes e flores, enquanto uma nuvem negra de fumaça cobre os prédios de Manhattan.


Hoepker define-se como fotojornalista, apesar de ser valorizado como artista no circuito internacional. Entrar nesse mercado, diz, foi apenas circunstancial. Com a redução do orçamento das revistas impressas, consequência da concorrência da internet, fotógrafos realizam cada vez menos trabalhos por encomenda de editoras, que garantiram a Hoepker fotografar séries históricas transformadas em livros, entre eles o impressionante Return of the Maya (Dewi Lewis Publishing, 160 páginas, 1998). A publicação regista a vida dos descendentes dos maias após a longa guerra civil da Guatemala, que acabou em 1996 e deixou um rasto de 150 mil mortes nos 36 anos do conflito, encerrado com o acordo entre o presidente Arzu e guerrilheiros.
Esse foi um trabalho para a revista Stern, que me mandou para a Guatemala fazer uma reportagem turística sobre os costumes locais”, conta Hoepker. Ele acabou subvertendo a pauta, envolvendo-se com o sofrimento dos maias. “Após 500 anos de opressão cultural, pela primeira vez esse povo pôde praticar seus rituais religiosos e resgatar antigos costumes de seus ancestrais”, lembra o fotojornalista, que visitou o país quatro vezes, registrando, de 1990 a 1997, como os descendentes dos maias recuperaram os corpos de seus mortos no confronto com o governo guatemalteco e a maneira como conduziram os ritos fúnebres em cavernas, ravinas e cachoeiras.

Para a mesma Stern ele realizou, em 1975, outra impressionante série sobre a vida quotidiana em Berlim Oriental, quando a cidade alemã ainda era dividida pelo muro. Hoepker, um alemão de 72 anos nascido em Munique, atravessou a cortina de ferro como assistente técnico da revista, registando imagens de dissidentes políticos como Wolf Bierman e Robert Havemann, além do retrato inquietante de um comerciante exibindo um ganso em plena época do Natal, uma raridade gastronómica na triste Berlim Oriental. “Comparando com o tempo em que lá vivi, a reunificação fez bem para os alemães do Leste, a despeito da nostalgia de alguns representantes do antigo regime, que não enxergam com bons olhos as mudanças na Alemanha”, observa.

Por essa época as fotos de Hoepker já eram distribuídas pela Magnum e seus documentários exibidos pela televisão alemã, chamando a atenção de editores americanos. Todos conheciam a série de Muhammad Ali, feita para a Stern em 1966, época em que negros eram discriminados em locais públicos nos EUA. O punho de Cassius Clay, exibido na foto desta página, era visto então como um protesto contra a opressão. “Foi uma leitura equivocada da foto, que é de facto ambígua, mas nem tanto como a do 11 de setembro”, esclarece Hoepker, dizendo que pretendeu apenas destacar o punho de um campeão.

No caso da foto desta página, a da tragédia das torres gêmeas, foi justamente o seu carácter indeterminado que fez Hoepker mantê-la escondida por três anos, até que um amigo seu da Alemanha resolveu incluí-la numa retrospectiva dedicada ao fotógrafo. Quando publicada nos EUA, ele foi acusado de banalização do terror. Hoepker defendeu-se, dizendo que não pretendia, de modo algum, ser desrespeitoso com a memória dos mortos na tragédia. “Tanto que, ao selecionar as fotos da Magnum para um livro, retive a minha, por considerar que sua publicação poderia distorcer a realidade tal como a percebemos naquele dia.”

A imagem foi registada por acaso. Retido no seu carro no Brooklyn, sem poder atravessar a ponte, ele viu um grupo de pessoas conversando descontraidamente no cais de Williambsurg e tirou três fotos. “Não pensei em nada naquele momento, nem mesmo em fazer uma crítica à alienação dos garotos (?), como denunciaram posteriormente dois deles”, admite o fotógrafo. “De qualquer modo, acho que é da natureza humana habituar-se ao horror”, diz o fotógrafo, um dos últimos da escola humanista de Cartier-Bresson e Elliott Erwitt, suas referências.





Fonte: CULTURA

blogdofavre.ig.com.br/tag/exposicao/

Seguidores

Povo que canta não pode morrer...

Barra de Vídeo

Loading...

Arquivo do blogue

Pesquisar neste blogue

A carregar...

Acerca de mim

A minha fotografia
isabel victor
Portugal
obra inacabada ...
Ver o meu perfil completo